Chovia e as gotas de chuva escorriam pela janela enquanto ela, seminua, olhava para fora fitando o horizonte. Seu pensamento estava nele e como o relacionamento dos dois havia se desgastado. Olhou para trás e observou-o deitado sobre a cama, enrolado aos lençois de seda branca. Pensou que o sexo não era mais como antes: quente, selvagem, cheio de malícia e palavras picantes ao pé do ouvido.
Observou-o quando ele se levantou e vestiu a roupa. Enquanto isso, procurava, sobre o bidê, sua carteira de cigarros. Sentou e fumou, lentamente. Esperou que ele saísse do banheiro e preparou-se para contar-lhe sobre seus sentimentos, mas não teve coragem. Ele, no entanto, percebeu que algo estava errado e perguntou-a sobre o que estava acontecendo. Ela tentou falar mas, surpreendentemente, caiu em prantos. Ele não entendeu o ato repentino, mas tentou consolá-la, sentando-se ao seu lado e passando a mão sobre seus longos fios morenos. Ela recuou, não desejava aquele carinho. Ele estranhou.
Pensou que havia feito algo que a desagradara. Forçou-a a contar qual era o problema. Ela titubeou mas, enfim, falou. Estava apaixonada por outro. Mantinham uma relação a pouco tempo, o suficiente para ela ter certeza do que queria. Ele ficou atordoado, não podia perdê-la. Sentou na outra ponta da cama, com as mãos sobre a face, deixando-a com um enorme sentimento de culpa. Porém, já era tarde: estava feito.
Vestiu-se. Procurou uma sacola, juntou algumas roupas que sempre deixava junto às coisas dele. Fitou-o, pela última vez, beijando-o na face. Abriu a porta e desceu as escadas, lentamente. Enfrentou a chuva, com um pensamento na cabeça: esta era a última vez que passaria por aquele local.
19.6.13
18.6.13
Corrida matinal
Fazia sua corrida matinal observando as folhas secas caírem no chão enquanto os pássaros cantavam em cima das árvores. Corria em passos largos pelo bosque - um hábito diário - quando foi surpreendido por um grunhido fora do comum, vindo de dentro da mata fechada.
Ficou com medo em um primeiro momento e pensou em fugir, mas a curiosidade foi maior e ele se aproximou, aos poucos , do som que ouvira. Pensou poder ser um lobo machucado ou algo parecido, mas não existiam lobos naquela região. Seria uma capivara? Um porco selvagem? Ou até mesmo uma pessoa em apuros?
Aproximou-se um pouco mais e viu as folhas dos arbustos em torno de si movimentarem-se num balanço desesperado. Sentiu pavor e pensou novamente em fugir, mas já era tarde demais. Ficou atordoado com o que viu. Esfregou os olhos com força, para ter certeza de que estava enxergando direito. Não quis acreditar, aquilo não poderia existir. Beliscou-se para ter certeza de que não estava sonhando. Mas não, era verdade e estava ali na sua frente: um pequeno dinossauro, que quase atingia sua altura.
De braços curtos e corpo robusto, parecia gemer de dor. Olhou para os lados e não encontrou nenhum vestígio de outros dinossauros por perto - pelo menos não aqueles que conhecia por assistir alguns documentários televisivos sobre o assunto. Sentiu pena do pobre bicho, ali, perdido e agonizante. Tentou aproximar-se para ver se encontrava alguma ferida, mas o animal, inseguro, ameaçou correr para longe. Recuou. De longe, observou um corte sobre a pata esquerda. Quis pedir ajuda, mas imaginou que ninguém acreditaria em sua história. Não havia o que fazer.
Refletiu por alguns momentos e resolveu que faria de conta que aquela história era apenas uma invenção de sua mente. Para não se sentir culpado, criou um final feliz, onde ele coletava algumas plantas curativas e aplicava sobre o machucado daquele ser que, agradecido, soltava um curto som de felicidade e embrenhava-se no meio da floresta . Foi embora de consciência tranquila, dirigindo-se normalmente para casa para preparar-se para mais um dia de trabalho.
Ficou com medo em um primeiro momento e pensou em fugir, mas a curiosidade foi maior e ele se aproximou, aos poucos , do som que ouvira. Pensou poder ser um lobo machucado ou algo parecido, mas não existiam lobos naquela região. Seria uma capivara? Um porco selvagem? Ou até mesmo uma pessoa em apuros?
Aproximou-se um pouco mais e viu as folhas dos arbustos em torno de si movimentarem-se num balanço desesperado. Sentiu pavor e pensou novamente em fugir, mas já era tarde demais. Ficou atordoado com o que viu. Esfregou os olhos com força, para ter certeza de que estava enxergando direito. Não quis acreditar, aquilo não poderia existir. Beliscou-se para ter certeza de que não estava sonhando. Mas não, era verdade e estava ali na sua frente: um pequeno dinossauro, que quase atingia sua altura.
De braços curtos e corpo robusto, parecia gemer de dor. Olhou para os lados e não encontrou nenhum vestígio de outros dinossauros por perto - pelo menos não aqueles que conhecia por assistir alguns documentários televisivos sobre o assunto. Sentiu pena do pobre bicho, ali, perdido e agonizante. Tentou aproximar-se para ver se encontrava alguma ferida, mas o animal, inseguro, ameaçou correr para longe. Recuou. De longe, observou um corte sobre a pata esquerda. Quis pedir ajuda, mas imaginou que ninguém acreditaria em sua história. Não havia o que fazer.
Refletiu por alguns momentos e resolveu que faria de conta que aquela história era apenas uma invenção de sua mente. Para não se sentir culpado, criou um final feliz, onde ele coletava algumas plantas curativas e aplicava sobre o machucado daquele ser que, agradecido, soltava um curto som de felicidade e embrenhava-se no meio da floresta . Foi embora de consciência tranquila, dirigindo-se normalmente para casa para preparar-se para mais um dia de trabalho.
16.6.13
Feiticeira Inverno
O seu elemento era o ar. Mas as suas maiores
epifanias e o seu quase nirvana se davam na água do banho. Tudo era planejado:
a temperatura, a luz do entardecer, a música alta no rádio.
Escorria a água quente na pele cansada e o som do
suspiro casava com perfeição com o ambiente. Formava-se a espuma na pele
aquecida e o som da respiração cadenciava. Molhavam os cabelos grudados na pele
delicada e o som da água envolvia.
Era a luz, tinha certeza: era a luz. Diáfana e
efêmera. Luz palpável como poesia. Que entrava pelos poros e escrevia versos
como tinta no papel. Mas era também o cheiro e a maciez. Do sabonete e da
própria pele. A suavidade descia em ondas nos caracóis do cabelo e nas curvas
da pele.
Acontecia o ritual. Fora, a água levava o velho.
Dentro, a energia movimentava o novo. Espalhava-se o calor. De cada poro até o
coração. Coração de folhas secas e ventos de outono, frio de inverno. Coração
de tanto amor que não sabia amar um alguém.
Enquanto a toalha tocava o corpo, toda ela era
coração. Toda ela músculo involuntário que pulsava no ritmo da música. Toda ela
som. E assim ela sente cada sensação na intensidade máxima, cada deslizar do
creme na pele macia.
Embalam-se suavemente as rendas da cortina.
Contrastam nitidamente as rendas escuras da lingerie e a pérola da pele.
Amarram-se suavemente as fitas, formando laços nas coxas macias. Embala-se
suavemente todo o corpo.
Os pensamentos dividem-se em lembrar o que foi e
imaginar o que não foi. Um verso no rádio capta a atenção e ela deseja ouvir
que também ela tem ares de milonga. Sabe, lá no fundo, que tem o sabor do
tango. Prolonga o êxtase do momento desembaraçando suavemente os cabelos,
sentindo caírem nos ombros, enquanto a toalha vermelho-sangue escorre até o
chão. Dança, no ritmo que vem da carne da alma e se espalha no ar.
Olhos semiabertos. Sempre achou que no entardecer se
vê melhor porque se olha para dentro.
Enrola-se suavemente a toalha no corpo. Cala-se o
rádio e os pés tocam céleres o piso frio até o quarto. Cerra-se a porta e a
toalha volta a escorrer vermelha até o chão. Cessa o silêncio e a música toma o
ar.
Ela acende o incenso de absinto, perfuma o ar e se
reintegra ao seu elemento. Ao escurecer, dança com o incenso na mão. O perfume
toma o ar. Para em frente ao espelho e se observa dançar, os movimentos da pele
nua tocada pela renda. Os olhos no espelho são fogueiras. Fascínio. Toda ela é
magia de absinto.
Bebe e se
embriaga em mim.
Acende a vela e observa a rosa formar a sombra
sedutora na parede. Pega papel e lápis. Já não pode mais. Precisa executar o
feitiço e derramar as palavras como mágica no papel, para entorpecer os
sentidos como as mais poderosas poções.
5.9.12
Diario de Mudanças
Mala aberta sobre a cama.
Roupas diversas empilhadas.
Caixas pelo chão.
Poeira pelo ar.
Começo a organizar tudo para a mudança. Estarrecido fico
com o volume de inutilidades guardadas durante a vida. Encaixoto o que realmente
importa e sigo em frente. Abrir a mão de lembranças, recordações e ser menos
sentimental; o pequeno apartamento não terá espaço para as caixas e caixas de
fotos de outros tempos, coleções ou livros. Várias lembranças físicas já
desfeitas, encaixotadas e guardadas em algum lugar da velha casa. Agora sigo apenas
com a subsistência... só sobrevivência.
Mala novamente aberta.
Roupas novamente empilhadas.
Caixas novamente pelo chão.
Poeira pelo ar (e pelos móveis).
O apartamento vazio. Uma vida que cabe em poucas
caixas. De sobre mesas e gavetas, tudo arrastado para caixas; a
preocupação com organização ficará para o próximo apartamento. Um problema para
meu 'eu futuro'. E a geladeira, mais vazia do que nunca.
A tão comum sensação de estar esquecendo algo vai tomando
conta. Mas o que realmente importa para a minha sobrevivência, agora cabe em
uma mochila. Como um soldado em plena guerra.
Mala novamente aberta.
Roupas novamente empilhadas.
Caixas novamente pelo chão.
Poeira pelo ar (e pelos móveis).
Novo apartamento. Nova mudança.
Os
móveis montados, mas vazios. Nenhuma decoração, paredes em branco. A sensação
contínua de sempre estar faltando algo; a sensação de estar vivendo em um
hotel.
As roupas não estão empilhadas.
As caixas não estão pelo chão.
Mas a poeira está pelo ar...
O novo apartamento ainda vazio. Os sons
ecoam nas paredes. Uma sensação mista e confusa sobre a amplitude de espaço; o
apartamento ainda é definido apenas por metros quadrados. Outros vizinhos,
mesmos problemas.
No piso, marcas da história; móveis
fantasmas, manchas pelo chão, madeira bronzeada. Resquícios de outras épocas,
outras pessoas, outras memórias. Em breve outros móveis; mas mesmos
objetos, fotos e decorações.
Por novas ruas passarei em minha rotina;
novas visões terei, até pelas mesmas ruas que já passei. Pela janela, novos
horizontes; outra paisagem, outra visão, mesma cidade. Levará dias até se
acostumar com o que vejo através do vidro, e até lá persistirá a sensação de
uma nova vida. Outra vida, mas mesma pessoa.
Espero que
agora persista um tempo de poucas mudanças. Ou... talvez...
alguma pequena mudança venha para o bem: novas mudanças, nova vida.
30.8.12
Desmemórias
Esqueci.
Esqueci o que pensava.
Esqueci o que pensava em escrever aqui.
Esqueci o que ia fazer quando levantei da cadeira;
Esqueci o que queria quando abri a porta da geladeira;
Esqueci o que ia falar quando liguei para o seu celular.
Esqueci...
Esqueci o que que ia concluir no longo discurso que planejava...!
Esqueci o que pensava.
Esqueci o que pensava em escrever aqui.
Esqueci o que ia fazer quando levantei da cadeira;
Esqueci o que queria quando abri a porta da geladeira;
Esqueci o que ia falar quando liguei para o seu celular.
Esqueci...
Esqueci o que que ia concluir no longo discurso que planejava...!
13.8.12
A perda
Como pude perder ela?
O que fiz de errado?!
"Só valorizamos o que perdemos"; me disseram!
Idiota fui ao não perceber meu erro.
Se tivesse me tocado antes.
Se pudesse voltar no tempo.
Onde foi que errei...?
Onde?!
Ah, o arrependimento... O que farei agora?
Não posso voltar no tempo.
Como remediar?
O que farei?!
Penso, repenso e fico tenso.
Lembro... ou tento lembrar.
Apaguei da memória.
Não há mais tempo à perder.
Como farei?!
7.8.12
Cinefilia
Amelie era uma cinéfila. Seu verdadeiro nome era Amanda, mas Amelie soava mais Hollywoodiano - pelo menos era o que "Amelie" pensava.
Amelie sonhava que um dia uma coruja chegaria em sua casa, lhe convocando para Hogwarts; que um dia encontraria um bilhete dourado em uma barra de chocolates, lhe concedendo uma visita à Wonka; que um dia encontraria um anel que lhe daria poderes; que seguiria por um caminho de tijolos amarelos pela Terra de Oz; e por ai segue. Despedia-se de seus amigos dizendo: "Que a força esteja com você"; sempre que tinha um problema, sussurrava: "Houston, we have a problem". Quando surgia qualquer perigo gritava: "Run, Forest, Run". E quando algo dava errado batia as mãos dizendo: "Corta!".
Amelie decorou praticamente todas as falas dos maiores clássicos do cinema mundial; e as usava em seu dia a dia. No início apenas uma brincadeira, mas com o tempo tornou-se um vício... incontrolável. Quando Amelie ganhou uma aliança de seu namorado, ficou em total silêncio olhando-a na palma de sua mão... e depois pronunciou, com muito sentimento: "My Precious..." - e tossiu de estranho modo algumas vezes (ato que repetia frequentemente). Quando Amelie fez uma proposta de trabalho à um funcionário, disse antes de qualquer coisa: "Eu vou lhe fazer uma proposta que você não poderá recusar". Quando Amelie iniciou um Clube do Livro em sua escola, começou a primeira reunião dizendo: "A primeira regra do Clube do Livro é 'nunca fale sobre o Clube do Livro', a segunda regra do Clube do Livro é 'nunca fale sobre o Clube do Livro'". Quando Amelie foi promovida no seu trabalho, respondeu para seu chefe: "Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades" - mas seu chefe sequer gostava de filmes, e ficou na dúvida se havia feito a coisa certa. E assim iniciou-se a decadência moral de Amelie.
Amelie progressivamente começou a comunicar-se apenas em uma pontuação, termos e fonética típica dos diálogos de filmes. Também criou uma quase certeza de que toda sua vida era filmada, como em "O Show de Truman"; e por isto evitava fazer "certas coisas". Amelie tinha uma certeza inabsoluta de que em outra vida lutou na guerra, assim como foi prisioneira de campos de concentração e piloto de avião. Com o tempo Amelie não suportou mais ir à praia, com terror de "Tubarão"; sequer andar de qualquer transporte hidroviário, com fobia de se repetir um "Titanic"; nunca mais entrara em uma avião, com um trauma não vivido de "Naufrago"; e jamais tomava sequer uma rápida ducha em um banheiro com cortinas, com receio de "Psicose".
Amelie certo dia notou que toda sua vida realmente era "cinematográfica"; mas contrariando o esperado, em vez de buscar ajuda médica, achou que faltava apenas um detalhe para sua história ficar completa: uma morte cinematográfica. E assim Amelie planejou cada detalhe de como iria morrer: data, local, situação, últimas palavras, vestido, iluminação, etc. Resumidamente: iria ser empurrada do alto de um prédio, durante uma discussão com um (fictício) amante, caindo em frente à uma cafeteria cheia de frequentadores. Contratou maquiadora, figurantes, entre outros. Com tudo pronto, Amelie preparou-se para aquele que seria o ponto máximo no filme de sua vida: o fim desta. Fez sua última refeição... e ao atravessar a rua, para subir ao prédio, morreu atropelada por um ônibus. Apenas uma pequena nota foi publicada em um jornal de baixa circulação.
2.8.12
Afogados
João sempre tomava um copo de uísque depois do trabalho para
afogar os problemas diários entre dois cubos de gelo. Um dia, o bar fechou.
Então, os problemas afogaram ele entre as duas margens do fétido rio que passava em
frente ao seu trabalho.
26.6.12
Uma dissertação sobre a falta de inspiração [2/2]
.[continuação...]
Odranoel buscou em sua memória algum assunto que havia deixado cozinhando em sua cabeça. Decidiu pelo item 345P2S - código este, qual ele garantia que fazia parte de um estabelecido ordenamento de suas idéias mentais. Porém, o item 345P2S consistia da 'lua cheia'. Visto que ainda era dia, dificultaria uma escrita com mais emoção, pois não conseguiria olhar para sua branca e redonda musa inspiradora; outro fato que se somava, era que nesta data a lua era minguante, e Odranoel não suportaria iniciar um texto que teria de aguardar até a lua certa para concluir. Assim, Odranoel decidiu, após cerca de 13 segundos, partir para outro assunto.
Uma dissertação sobre a falta de inspiração [1/2]
Odranoel - escritor, leitor e crítico-gastronômico-amador-de-fins-de-semana - escrevia diariamente em sua máquina Olivetti Letera 82, de cor verde. Seu processo criativo consistia em um projetado e elaborado 'improviso'.
Odranoel acordava todas as manhãs às 07:37 em ponto, descia para as ruas onde comprava um café-para-viagem em uma cafeteria na esquina, e 3 pães-de-queijo com um vendedor ambulante à duas quadras do primeiro local. Odranoel nunca viajava com seu café; e a cafeteria até vendia pães-de-queijo, mas eram de um tamanho muito maior do que os vendidos pelo ambulante - e achava uma pouca vergonha apenas 1 pão-de-queijo custar o mesmo valor de 3 em outro local... independente de seus tamanhos. Após a compra do café e dos pães-de-queijo, Odranoel seguia até um terceiro local, uma praça, onde sentava-se sempre no mesmo banco, ao lado de um coqueiro, onde tomava (e comia!) seu café-da-manhã - em dias de chuva, Odranoel molhava-se.
Odranoel acordava todas as manhãs às 07:37 em ponto, descia para as ruas onde comprava um café-para-viagem em uma cafeteria na esquina, e 3 pães-de-queijo com um vendedor ambulante à duas quadras do primeiro local. Odranoel nunca viajava com seu café; e a cafeteria até vendia pães-de-queijo, mas eram de um tamanho muito maior do que os vendidos pelo ambulante - e achava uma pouca vergonha apenas 1 pão-de-queijo custar o mesmo valor de 3 em outro local... independente de seus tamanhos. Após a compra do café e dos pães-de-queijo, Odranoel seguia até um terceiro local, uma praça, onde sentava-se sempre no mesmo banco, ao lado de um coqueiro, onde tomava (e comia!) seu café-da-manhã - em dias de chuva, Odranoel molhava-se.
19.4.12
Pimenta Rosa
Enquanto ela penteava os cabelos molhados na semiescuridão do entardecer, ele observava da cama aquele ritual fascinante. Os olhos dela desviaram dos fios para o espelho, e um meio sorriso brincou em seus lábios ao encontrar outros olhos lhe observando. Sem que precisasse perguntar, ela sabia que aquele momento era um dos que ficavam pra sempre na memória. Percorreu lentamente com os olhos o contorno do corpo em meio aos lençóis desfeitos onde há pouco estivera. Sorriu e sentiu aquele sentimento inominável percorrer todo o corpo novamente, aquele sentimento sobre o qual ela não queria pensar para não terminar o encantamento.
Ele observava a pele macia, os cabelos rebeldes e o sorriso... Ah, o sorriso. Malicioso de uma forma pura, com uma tristeza que ele talvez jamais conhecesse completamente. De novo pensava na pele. Nas rendas e fitas, nos tons pastéis onde há pouco se perdera, mergulhara, desfizera. Não tinha como evitar o estremecimento quando pensava nela, quando lembrava que talvez ela jamais devesse estar ali. Mas sentia o cheiro de pimenta rosa inundando o quarto e o banheiro, e só conseguia desejar o breve retorno daquele cheiro para perto.
Tinham substituído o tradicional cigarro posterior por café. Café, sempre tão adequado àquela incomum plasticidade artística que os envolvia. Ela terminava o café olhando nua para o céu estrelado, da janela do apartamento, os carros passando tão perto e tão longe. O tremor parecia constante, e não seria diferente longe dele. Não podia negar que ficava deliciosamente perturbada com o cheiro da pele, do perfume, do couro das roupas dele invadindo seu nariz, seus poros, sua alma. Novamente ele a observava.
Dessa vez, ele sussurrou baixinho quando ela flagrou seu olhar: “Tentando gravar tua imagem.” “Na retina ou na memória?” “Na retina, na memória, na pele, no peito... em tudo.” “Você acha que eu vou fugir?” “Você se faz tão minha e tão intensa que eu sempre tenho medo que um dia você não se faça mais. E tem o abismo, esse abismo enorme que pode acabar com um sentimento porque uma sociedade que não sabe sentir não quer que aconteça” A resposta dela foi um sorriso, breve, cálido, que fez com que ele se sentisse seguro de que, mesmo depois do fim, aquele momento nunca acabaria.
Ele se perdia em meio aos livros de uma mesa e ela observava do sofá, aninhada e enrolada como uma gata, também lendo. Ele tinha consciência do fascínio que exercia na jovem mulher estirada no seu sofá, que o observava ler, anotar e produzir, disfarçadamente. Ela apenas não disfarçava o enlevo que aquele homem tão completo tinha sobre ela. Não sabia se era instinto que a fazia permitir que seu cheiro ficasse nas páginas que manuseava enquanto trocava observações sagazes com ele. Mas sabia que era dela, e só dela, que ele lembraria quando abrisse aqueles livros de novo, e o odor da pimenta rosa o envolvesse mais uma vez.
Eles não se preocupavam com o fim, porque incomparavelmente difícil havia sido o começo. Deixar que acontecesse agora era fácil, era espontâneo... O cuidado dos gestos iniciais se perdera. O que restou, e ali estaria até o fim, era a intensidade vívida de cada momento. Um olhar na janela, um poema sussurrado. Os pequenos detalhes e as grandes semelhanças que fizeram com que eles fossem um... E talvez um dia os desfizesse.
3.4.12
Telefone desfixado
Acordei assustado com um barulho estranho. Tinha aquela impressão de que o som vinha de dentro do meu apartamento. Levantei em um pulo e abri a porta; passei pelo corredor tentando adivinhar de onde viria aquele som. Pressupus a direção, depois de muitos virares de cabeça tentando de uma forma totalmente instintiva gerar o melhor ângulo para que o som se propagasse para dentro de minhas orelhas - como um cão que gira a cabeça quando ouve algo desconhecido. Definitivamente o som vinha da minha sala.
Fui seguindo o termitente som como quem segue o bip-bip de uma bomba relógio. Passo a passo, lentamente, me aproximei de uma mesinha, ao lado de uma cadeira. Estendi a mão, com todo o cuidado humanamente possível, e retirei uma jaqueta - jogada em algum momento qual me falha a memória - de sobre onde certamente vinha o som. Qual surpresa foi ao reparar que aquilo aparentemente era um telefone-fixo.
26.3.12
Idade
Um dos maiores choques na vida de uma mulher é o momento em
que ela se olha no espelho e percebe que está envelhecendo: a primeira ruga é
sempre um divisor de águas. Digo isso com propriedade pois, há alguns dias
atrás, isso aconteceu comigo. Um pouco antes de dormir, depois de colocar o
pijama e tirar a maquiagem, parei na frente do espelho e fiquei pensando: quem
é esta jovem senhora que está ali do outro lado? Sim, eu estava me chamando de
senhora, no auge dos meus 27 anos de idade!
Eu sei, neste momento muitas mulheres devem estar furiosas,
abandonando este texto, enquanto esbravejam contra esta ‘menina’ que vos
escreve. “Ela tá se achando velha antes dos 30? Imagina quando chegar aos 60!”
– dirá uma. “Isso é uma falta de respeito comigo, se essa garota pensa que está
velha aos 27, o que deve pensar sobre mim, que tenho 54?” – pensará a outra.
Mas, queridas leitoras, fiquem e compreendam meu raciocínio.
Se vocês já passaram pelo doloroso despertar para a maturidade, tentem se lembrar da primeira
vez em que perceberam que o tempo havia passado. Não importa a idade nem a
quantidade de rugas no rosto. Lembrem do sentimento. Revivam este sentimento
por um instante. Recordem-se de como foi doloroso descobrir tal fato e que não
fazia diferença nenhuma se seu namorado, marido ou até sua irmã mais nova dissessem
que você continua linda e maravilhosa e nem dá para ver as marcas de expressão.
Pois é, a gente sempre se sente igual. Afinal, somos
mulheres e, para nós, a autoestima é fundamental. Não é só uma questão de
beleza, é muito mais de aceitação. Por isso, como eu ainda não estou aceitando
a minha descoberta, vou ali comprar uns creminhos anti-idade e já volto. Tchau.
Originalmente publicado no jornal Correio do Povo de 22 de março de 2012.
13.3.12
Bicicleta de Lomba
Olhei para o lado e vi minha bicicleta escorada na parede, com os pneus murchos e o banco estragado.
Comprei esta bicicleta para facilitar meu trajeto até o trabalho; qual já estava facilitado, pois me mudei a pouco tempo para mais perto, à fim de evitar perder tanto tempo em trânsito - afinal de contas, eu poderia pegar estas cerca de 3h de trânsito diárias e gastar em 'nadismo'.
Andei alguns dias de bicicleta até a empresa, o que tornou o trajeto ainda mais rápido e prático. O vento na cara me proporcionava uma sensação de liberdade, mas estragava meus cabelos (os poucos que ainda restam). Na realidade também não me permitia andar lendo (sim, aprendi a fazer isto à algum tempo, para aproveitar ainda mais o tempo "livre"). Mas a bicicleta acabou estragando e foi mais fácil deixá-la encostada na parede do que fazer a manutenção necessária.
Comprei esta bicicleta para facilitar meu trajeto até o trabalho; qual já estava facilitado, pois me mudei a pouco tempo para mais perto, à fim de evitar perder tanto tempo em trânsito - afinal de contas, eu poderia pegar estas cerca de 3h de trânsito diárias e gastar em 'nadismo'.
Andei alguns dias de bicicleta até a empresa, o que tornou o trajeto ainda mais rápido e prático. O vento na cara me proporcionava uma sensação de liberdade, mas estragava meus cabelos (os poucos que ainda restam). Na realidade também não me permitia andar lendo (sim, aprendi a fazer isto à algum tempo, para aproveitar ainda mais o tempo "livre"). Mas a bicicleta acabou estragando e foi mais fácil deixá-la encostada na parede do que fazer a manutenção necessária.
6.3.12
Ocupada demais
Ana era uma jovem sonhadora, recém chegada à segunda década de vida. Apesar da curta viagem, o caminho lhe proporcionara vários obstáculos que lhe calejara as mãos...e o coração. Tinha tantos sonhos, mas o único que lhe tirava o sono era o amor não correspondido de seu ex-namorado, Rafael.
Ana e Rafael tiveram, por um ano e pouco, o frescor da paixão ardendo dentro de si e com isso saborearam doces e incríveis momentos. Ana não esquece, nem Rafael. Por mais que o destino tenha os separado, a saudade visita e o tempo não apaga o que da vida já se construiu.
Um relacionamento tão jovem e encantador como esse, normalmente é conturbado na despedida. Ambos haviam experimentado pela primeira vez na vida o amor, a rosa...mas também os espinhos e, nesse sentido, Ana não havia digerido os espinhos. Ainda chorava o desejo, mesmo que seu primeiro amor não tivesse nada além de memórias dentro de um magoado coração. À cada novo dia - que parecia ser mais longo - e à cada noite perdida de sono, sua autoestima descia vários degraus. Sentia-se menor...incapaz de amar e ser amada, apesar de no fundo saber que era uma grande garota. Sonhadora porém cultivadora dos pequenos detalhes, sedenta pela vida e pelo amor que sentia-se capaz de proporcionar. Sabia de suas qualidades, mas nesse momento Ana só enxergava um ponto escuro em meio à folha totalmente branca.
Ana em sua triste empreitada conheceu Marcelo, que apesar de ouvir os lamentos de Ana por longos dias e oferecer-lhe o ombro, a palavra e a cumplicidade, tinha dentro de si a certeza que poderia dar à Ana o que de melhor aquela jovem merecia. Sabia também que ultimamente Ana não dava atenção pra rapaz nenhum, fosse ele malandro ou um gentleman, como ele mesmo. Mas nunca desistiu, fez o que de melhor podia e mesmo que tentasse, Ana estava ocupada demais...
Ocupada demais carregando suas pesadas malas, cheias de pesos desnecessários. Por vezes cansada, abria suas malas e remexia tudo ali dentro, mas nada retirava. Estava ocupada demais alojando dentro de si o que já deveria ter ido embora há algum tempo, e tão ocupada não tinha tempo para os outros... nem pra Marcelo. Havia tornado-se refém de seus medos, de ficar sozinha, mesmo que a solidão já lhe habitasse por tempos.
Ana acomodou-se na dor e criou laços com suas dificuldades. Por vezes proferia: "Eu sou assim -e não posso mudar", criando uma máscara que escondesse sua face, de seu coração. De reconhecer que havia sido derrotada e a partir dessa etapa começar a superar sua perda. Mas Ana estava ocupada demais, ocupada demais em viver a vida de seu ex-namorado, antes mesmo da sua. Dizia amá-lo tanto e, mesmo na dor, acreditava poder proporcionar à ele uma grande história de amor, ainda que não pudesse fazer isso a si mesma.
Marcelo partiu e, com ele, partiram novos encontros e desencontros.
Ana? Bem, Ana segue sua luta...contra suas malas. E nelas um bilhete deixado por Marcelo:
"Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro."
Ana e Rafael tiveram, por um ano e pouco, o frescor da paixão ardendo dentro de si e com isso saborearam doces e incríveis momentos. Ana não esquece, nem Rafael. Por mais que o destino tenha os separado, a saudade visita e o tempo não apaga o que da vida já se construiu.
Um relacionamento tão jovem e encantador como esse, normalmente é conturbado na despedida. Ambos haviam experimentado pela primeira vez na vida o amor, a rosa...mas também os espinhos e, nesse sentido, Ana não havia digerido os espinhos. Ainda chorava o desejo, mesmo que seu primeiro amor não tivesse nada além de memórias dentro de um magoado coração. À cada novo dia - que parecia ser mais longo - e à cada noite perdida de sono, sua autoestima descia vários degraus. Sentia-se menor...incapaz de amar e ser amada, apesar de no fundo saber que era uma grande garota. Sonhadora porém cultivadora dos pequenos detalhes, sedenta pela vida e pelo amor que sentia-se capaz de proporcionar. Sabia de suas qualidades, mas nesse momento Ana só enxergava um ponto escuro em meio à folha totalmente branca.
Ana em sua triste empreitada conheceu Marcelo, que apesar de ouvir os lamentos de Ana por longos dias e oferecer-lhe o ombro, a palavra e a cumplicidade, tinha dentro de si a certeza que poderia dar à Ana o que de melhor aquela jovem merecia. Sabia também que ultimamente Ana não dava atenção pra rapaz nenhum, fosse ele malandro ou um gentleman, como ele mesmo. Mas nunca desistiu, fez o que de melhor podia e mesmo que tentasse, Ana estava ocupada demais...
Ocupada demais carregando suas pesadas malas, cheias de pesos desnecessários. Por vezes cansada, abria suas malas e remexia tudo ali dentro, mas nada retirava. Estava ocupada demais alojando dentro de si o que já deveria ter ido embora há algum tempo, e tão ocupada não tinha tempo para os outros... nem pra Marcelo. Havia tornado-se refém de seus medos, de ficar sozinha, mesmo que a solidão já lhe habitasse por tempos.
Ana acomodou-se na dor e criou laços com suas dificuldades. Por vezes proferia: "Eu sou assim -e não posso mudar", criando uma máscara que escondesse sua face, de seu coração. De reconhecer que havia sido derrotada e a partir dessa etapa começar a superar sua perda. Mas Ana estava ocupada demais, ocupada demais em viver a vida de seu ex-namorado, antes mesmo da sua. Dizia amá-lo tanto e, mesmo na dor, acreditava poder proporcionar à ele uma grande história de amor, ainda que não pudesse fazer isso a si mesma.
Marcelo partiu e, com ele, partiram novos encontros e desencontros.
Ana? Bem, Ana segue sua luta...contra suas malas. E nelas um bilhete deixado por Marcelo:
"Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro."
21.2.12
Descasamento
- É sempre a mesma coisa, você não se dá o trabalho de levantar desse sofá e colocar o copo na pia, Eugênio.
Entre copos sujos e meias espalhadas pelo chão, o casamento desandou. Eugênio saiu de casa, Marta foi morar com a mãe. O antigo ninho de amor se transformou em um museu de recordações tão dolorosas que a maior briga era para se desfazer do imóvel.
- Eu fico com o seu carro e você me paga o resto do apartamento com as joias da sua mãe.
- Nem pensar, nas joias da mamãe você não toca!
Enquanto brigavam, não repararam naqueles dois ratinhos que encontraram no quarto do ex-casal a oportunidade de uma vida tranquila. Roedores que eram, não se preocupavam com o amor, a rotina ou o comportamento do companheiro - queriam apenas um teto para procriar e manter seu legado em segurança. Depois de cinco anos, o local estava infestado. Com a decisão judicial, Marta foi a primeira a perceber que o patrimônio não lhe pertencia mais: por usucapião, fora concedido aos asquerosos mamíferos, que a esta época já estavam chegando à casa dos milhares.
- Eugêêêênioooo! Venha ao apartamento imediatamente! Ele foi invadido por ratos! Isso é tudo culpa sua!
Eugênio, ao verificar o ocorrido, pensou em quanto aquele casamento e todas as suas consequências haviam lhe trazido problemas. Era mais feliz quando estava solteiro e não tinha que lidar com ratos imundos e uma ex-mulher histérica. Resolveu mandar dedetizar, para que Marta o deixasse em paz. Todavia, o ex-casal não esperava que esse fato mexeria tanto com suas vidas.
Kléber, o dono da empresa de dedetização, era um homem gentil, cortês e tinha lá o seu charme. Com bom papo e muita atenção para dar, logo encantou Marta. Era tudo o que ela precisava. Mas também era tudo o que Eugênio queria, mesmo sem saber. Acostumado àquele tipo de experiência, Kléber logo convenceu os dois sobre a normalidade da situação: não era algo sobre o amor e seus subprodutos; era uma relação de prazer, aventura e aceitação.
Em pouco tempo, o apartamento estava pronto para ser habitado por Marta, Kléber e Eugênio. E, por hora, todos viveram felizes.
14.2.12
Cabide em forma de cadeira
Por um canto de meu quarto paira uma cadeira. Na real poucas vezes sentei nela.
Ela serve mesmo como cabide!
Até cogitei comprar um daqueles cabideiros tradicionais, verticais, com várias pontas. Mas fiquei na dúvida entre um de metal e um de madeira, e ainda tinha a questão da cor; mas claro, um cabideiro tradicional destes não combinaria com o estilo do meu quarto. Uma cadeira tem mais irreverência.
A cadeira, além do estilo descontraído e jovial, tem outros benefícios: serve também como 'cadeira'. Quando necessário, é só tirar todas as roupas empilhadas e jogá-las sobre a cama e sentar-se. Algo tipo um 2 em 1. Tudo bem, as roupas ficam meio amassadas, mas é bem prático. Garanto!
Eu andei procurando outros objetos similares para tal utilização; pensando em mudar um pouco o feng-shui do quarto. Até me recomendaram uma esteira ergométrica - garantiram que em pouquíssimo tempo ela funciona super bem como cabide -, mas não achei que combinaria com a cor da minha parede.
31.1.12
Vidas secretas
Ele era um cachorro. Um simples cachorro sem raça definida
que se contentava em ser alimentado todos os dias e ganhar algum brinquedo de
vez em quando. Olhava o mundo através da janela do apartamento em que vivia
junto aos seus donos e mais um tímido gato que não gostava de ser perturbado.
Tanto faz, ele não era fã de gatos, mesmo. A única coisa que o intrigava era
aquele casal com quem compartilhava o mesmo teto. Era um casal estranho em um
casamento mais estranho ainda. Tratavam-se com educação enquanto estavam
juntos, principalmente na frente de visitas, mas escondiam, um do outro, mais
do que a insatisfação no relacionamento. Escondiam como buscavam aquilo que
faltava na convivência diária.
O dono, por exemplo, passava as madrugadas em frente ao
computador, no quarto de visitas, enquanto a esposa dormia, envenenada pelos
tranquilizantes. Às vezes, ele saía abruptamente no meio da noite e voltava
cerca de uma hora depois, com um grande sorriso no rosto. A dona, por sua vez,
sempre trazia amigas muito íntimas, com as quais passava as tardes trancada no
quarto principal. Até aparentavam viver uma vida tranquila e alegre mas, no
fundo de seus olhos, aquele cachorro percebia que as coisas não eram tão boas
assim. Seu instinto canino lhe dizia que não havia felicidade naquele lar.
Mas era apenas um cão e achava complexo demais pensar nos
mistérios das relações humanas. Para ele, bastava sobreviver. Não conhecia
outra forma de ser feliz. Comer, brincar e dormir eram os seus principais objetivos.
Por isso, preferia não gastar seu tempo tentando compreender seus donos. Por
mais estranhos que fossem, resolveriam seus problemas sozinhos. Nenhum
vira-latas no mundo poderia ajudá-los.
30.1.12
Sonho
Qual é o seu sonho?
Tem quem quer ser atriz. Tem quem quer ser jogador de futebol. Tem quem quer ser astro do rock. Designer de games. Piloto de avião. Escritor. Rico e famoso. Tem quem quer ser só feliz.
Todo sonho, a princípio, soa impossível. Fulaninha quer ser isso, mas não faz o tipo. Beltraninho quer ser aquilo, mas aonde ele vive não existe oportunidade.
A única maneira de destruir a alma de alguém é dizer que o sonho é impossível, ridículo, estúpido ou sem sentido.
Um sonho é uma coisa profunda e íntima, que dá um frio na barriga só de pensar que possa se realizar. É difícil acreditarmos honestamente que ele possa se tornar realidade, por isso deixamos ele guardado em uma gaveta, de onde só tiramos naqueles momentos da noite, antes de dormir, e se fica imaginando como seria se acontecesse...
Querendo ou não querendo, nós deixamos de ser crianças. Deixamos de acreditar em contos de fada e trocamos a inocência pela malícia. Mas a criança que fomos nunca nos abandona. Lembra dos sonhos que aquela criança tinha? De como ela imaginava como seria realizá-los? Isso faz parte daquilo que não nos abandona. A única coisa que realmente vai embora é aquela inocência de acreditar que realmente, de verdade, somos capazes de transformar aquele sonho impossível, ridículo, estúpido e sem sentindo... em algo palpável.
Um sonho não tem idade, um sonho não tem preconceitos e, mais do que tudo, um sonho não tem limites.
Mas, diferente do que algumas pessoas vão te dizer, é ruim. É terrível. Você nunca vai passar por tanta dor quanto a que se passa quando se persegue um sonho. O suor e o sangue dado que, por muitas vezes, não resulta em nada. Toda a força que se precisa para tentar mais uma vez. Todas as pessoas dizendo que você não vai conseguir. A tentação de de desistir...
Tudo isso para passar por aquele pequeno instante, aquele segundo magnífico em que você vai cair de joelhos no chão e gritar, enquanto segura as lágrimas, "eu consegui".
Pra resumir, sonhar é horrível. O bom é realizar.
24.1.12
Um dono sem cão
A alguns dias fiz um bem para o corpo que tanto carrega esta minha cabeça, e resolvi dar uma corrida. Tipo esportista de fim de semana...
Alonguei-me por alguns míseros segundos - apenas por descargo de consciência - e desci as escadas do apartamento. Abri o portão, respirei fundo e iniciei aquela que seria uma longa e memorável corrida - ao melhor estilo Forest Gump.
Corri nem 100 metros, quando um cão surgiu ao meu lado. Um belo cachorro; preto e branco, uma cara amigável; até lembrava um border collie. O cão me olhou, e ficou me seguindo. Não dei atenção, imaginei que logo surgiria seu dono; e continuei em meu trajeto muito bem não-planejado. E o cão me seguindo. Foi divertido, correndo com um cachorro, uma bela companhia. Foi legal... até que comecei a me sentir 'seguido'. Cansei. Tentei tocar o animal, mas ele sempre voltava a me seguir. Tentei xingá-lo, bater o pé no chão, correr eu de trás dele. Mas nada, o animal era teimoso. Após repetir os xingares e bateres-de-pé-no-chão por umas 10 vezes, desisti. Continuei correndo; pensei: uma hora ele cansa. Ah, doce ilusão. O animal tinha muito mais fôlego que eu.
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